Agilidade é tudo nas redes sociais, todo mundo sabe disso. Especialmente em coberturas em tempo real. Mas nessa eu me superei. Segura aí que vale a pena saber como eu consegui primeiro a foto histórica que ninguém tinha.
Já deu pra notar que é a imagem da primeira vacinação contra covid-19 no Brasil. Talvez a mais importantes do século, né. E eu tive de pensar ligeiro pra poder postar rápido no Twitter e garantir o engajamento desejado.
O processo para capturar uma foto histórica
Era 17 de janeiro de 2021. Dia em que a Anvisa votaria a autorização ou não do uso emergencial das vacinas Coronavac e AstraZeneca. Fui escalado pra cobrir. Eu era social media do Estadão, e geralmente meu tudo era o da manhã. Não naquele domingo.
Eu já tava no time tinha um tempo. Conhecia o esquema e já era mesmo meu plantão. Era estratégico eu estar ali. Foi um momento histórico pro Brasil e pra mim como jornalista e social media.
Do meu quarto — mais precisamente da minha cama, quarentena, né! — assumi o posto e liguei a TV no YouTube onde a audiência da Anvisa era transmitida. Notebook no colo, assisti voto a voto fazendo a cobertura — especialmente no Twitter.
No site, tínhamos uma mesma matéria cujo título e texto eram atualizados a cada novo voto. A vizinhança claramente também assistia e comemorava a cada atualização.
A foto histórica está a caminho
A redação fica sabendo que o governador de SP, João Doria, daria uma coletiva após a votação e queria vacinar contra covid a primeira pessoa em solo brasileiro. Logo, descobre-se o nome dessa pessoa. Mônica Calazans.
Mulher negra, de 54 anos, moradora da periferia em São Paulo, com perfil de alto risco para complicações da covid-19 e profissional de saúde. Difícil perfil mais significativo. A imagem dela já aparecia na TV e eu revirei as redes atrás da foto. Ainda não era a foto histórica.
Achei e montei este post para Instagram. Foi hit instantâneo. Mais de 100 mil likes. Eram 14h54.
Minutos depois, a votação chegava ao fim. Mas já circulava que, por razões burocráticas, Doria talvez não pudesse vacinar Mônica naquele mesmo domingo. Às 15h19, praticamente em cima do último voto que aprovava unanimemente o uso emergencial das vacinas no Brasil, postei este urgente.
Ele foi mesmo muito bem no Twitter, mas no Instagram foi um estouro. Quase 100 mil likes, 1.500 comentários.
Pra todos os efeitos, Doria tinha mantido a coletiva de imprensa. Era importante seguir isso também, mas dava pra ir à cozinha beber água.
Nisso, lembrei que em ocasiões como essa a TV Cultura transmitia atos do governo paulista. Era possível que isso acontecesse. Voltei, liguei na Cultura e quase tive uma síncope!
A hora é agora!
Lá estava Mônica, de jaleco, numa cadeira com uma profissional de saúde de um lado e o governador do outro. E aquilo era uma seringa? “Ela tá sendo vacinada. Eu preciso postar isso agora!”
Catei o computador e conferi no grupo da redação que estavam todos em alvoroço. Eu sabia que tínhamos a matéria adiantando quem seria a primeira vacinada. Sem dúvidas, aquela dose seria atualizada ali. Peguei o link!
Mas nessa altura não teria ainda fotos profissionais daquilo. E eu precisava daquela imagem histórica. E a resposta tava na minha frente.
Tanto a TV Cultura quanto o canal do Governo de SP no YouTube transmitem ao vivo algumas vezes. E a vantagem dessa transmissão é que dá pra pausar, voltar e reassistir.
Bingo! Mônica já comemorava na live, mas voltei alguns segundos, coloquei em tela cheia e tirei um print. Virou uma foto pixelada. Tem um logotipo do Governo de SP. Uma mão esquisita de um fotógrafo na frente, poluindo o quadro. Pouco importa. A foto histórica tá ali.
E ninguém tinha essa imagem. Ainda. É claro que eu não fui o único a pensar nisso. E canais de TV exibiam ao vivo também.
Não tinha matéria atualizada na hora, não tinha título da redação, mas era por isso que eu tava ali. Essa é a vantagem de ser jornalista sendo social media de um veículo de comunicação.
Atualizei o título anterior no campo de publicação mesmo, botei o print no post, o link da matéria que seria ajustada em minutos, apertei tweetar. Eram 15h36.
Em menos de 17 minutos eu passei de ver uma promessa para um dos primeiros — se não o primeiro — jornalistas a publicar nas redes sociais que a 1ª dose de vacina contra a covid foi aplicada em uma pessoa no Brasil.
As milhares de interações com o post foram só comemoração depois desse marco de carreira.

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