Quem via Timothy Ray Brown não imaginava que ele foi curado do HIV, a primeira pessoa na história a se livar da infecção que causa a Aids. O americano de Seattle, Washington, passou por um tratamento complexo e quase mortal para derrotar o vírus.
Registrado na literatura médica como “Paciente de Berlim“, Brown decidiu abandonar o anonimato em 2010 e mostrar ele mesmo ao mundo a própria a cura. Em 2020, após o retorno da leucemia em um estágio terminal, ele não resistiu e morreu na Califórnia.
Este é um resumo com aluguns dos trechos mais fortes da entrevista que fiz com ele em 2019, e você pode ler na íntegra no site do Estadão.

Timothy enfrentou uma jornada marcada por avanços médicos e vulnerabilidades humanas. Após sobreviver à Aids nos anos 1990, a leucemia o levou a um transplante de medula duplo, usando células de um doador com mutação rara que bloqueia o HIV.
O tratamento quase fatal destruiu o sistema imunológico e o deixou frágil, mas eliminou o vírus. O feito que o tornou o 1º curado do HIV foi divulgado em 2009.
Já a leucemia foi mais complexa, exigindo um segundo transplante. Apesar do sucesso, Timothy enfrentou solidão e uma certa dependência de um ex-namorado que o ajudou a recuperar-se quando médicos desistiram.
Apesar de pioneiro, Brown me confessou o medo de perder relevância se mais curados surgissem.
“Às vezes penso que não serei mais importante”, admitiu, destacando o conflito entre ego e desejo por uma cura universal.
Ele valorizava a liberdade sexual pós-cura e tinha sede de viver: “Não quero morrer!”, me disse. Além de um marco científico, a história de Timothy revela a complexidade de carregar um legado global enquanto navega fragilidades pessoais.
Depois do transplante e de combater HIV e leucemia, qual foi a pior e a melhor parte disso tudo?
Depois do segundo transplante eu me lembro de estar no hospital, me sentindo muito solitário, embora meu ex-namorado viesse sempre me visitar – e eu esqueci de mencionar que ele tinha rompido o namoro comigo por causa de um cara hétero da academia. Ele disse ‘eu vou me mudar para o apartamento dele e é assim que vai ser, nós nunca mais vamos voltar a ficar juntos’. Porque ele sentia que tinha feito tanto por mim e eu nunca tinha dado o devido valor. Mas eu tinha dado! Eu sentia que eu realmente precisava dele, e, de fato, mesmo depois que ele rompeu comigo, ele ainda vinha me acompanhar no hospital todo dia. E ele sempre estava ao meu lado para tudo.
Por exemplo: em um momento a equipe médica chegou à conclusão de que tinha feito tudo o que poderia por mim. Então eles me mandaram para casa e enviaram um enfermeiro para me administrar morfina. Basicamente, eles iriam me deixar morrer sob o efeito da morfina. E meu ex disse ‘isso não pode ficar assim. Eu acho que nós podemos sim reverter esse quadro! Por que eles estão desistindo?’.
Ele me conseguiu um centro de tratamento de pessoas com danos cerebrais severos, porque na época eu não conseguia me mexer, e com a ajuda de um fisioterapeuta eu recuperei a capacidade de andar. A comunidade médica tenta tomar todo o crédito por ter me curado, mas na realidade ele foi uma das razões porque eu me curei. E eu o amo muito por isso!
E aí ele terminou contigo! (risos) Está me dizendo que depois disso tudo a pior parte foi um coração partido?
Sim, apesar de que eu realmente posso entender [o lado dele]. Mas nós ainda somos muito próximos um do outro. Ele está na Alemanha, eu aqui, mas a gente se fala por WhatsApp o tempo todo. Tim [o atual namorado] o conheceu e nós vamos juntos para Berlim no aniversário dele, em junho. Então ainda somos muito próximos.
Você enfrentou vários momentos de vida ou morte. Qual é a sua relação com a morte?
Eu não quero morrer! Definitivamente eu tenho uma determinação muito forte de continuar vivo. E eu acho que seria realmente muito trágico se eu fosse atropelado por um carro qualquer dia desses! [risos] Eu ando de bicicleta sem capacete, então eu me acho ‘o invencível’.
Qual a importância que você dá para este título, de primeira pessoa curada do HIV?
Em algum momento já eu pensei… e eu estou compartilhando algo que nunca falei antes, exceto paro o meu namorado… Às vezes eu penso que se houver mais pacientes curados eu não serei mais tão importante. Mas, ainda assim, eu estou expressando a minha opinião de que eu quero que hajam sim muitas mais curas. Então meio que meus pensamentos negativos não estão em sincronia com o meu desejo mais profundo [de uma cura universal].

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